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Análise Aplicada do Comportamento e Autismo

Análise Aplicada do Comportamento e Autismo
Por Giovanna Polanski Brambilla, RBT® - Registered Behavior Technician (RBT-18-55036)
 

CONSIDERAÇÕES SOBRE ABA
Análise Aplicada do Comportamento é uma ciência que utiliza princípios de aprendizagem e motivação oriundos de décadas de pesquisas científicas com a finalidade de solucionar problemas socialmente significantes. Profissionais que trabalham com ABA possuem uma credencial fornecida pelo BACB® - Behavior Analyst Certification Board (Comitê de Certificação do Analista do Comportamento). Serviços em ABA são supervisionados por um BCaBA® - Board Certified Assistant Behavior Analyst (Analista do Comportamento Assistente Certificado pelo Conselho), por um BCBA® - Board Certified Behavior Analyst (Analista do Comportamento Certificado pelo Conselho) ou por um BCBA-D® - Board Certified Behavior Analyst - Doctoral (Analista do Comportamento Certificado pelo Conselho - nível Doutorado). O único que trabalha diretamente com a criança é o RBT® (Técnico Registrado do Comportamento), sendo também o único cujo comportamento afeta a vida do cliente fora do contexto clínico. (Tarbox & Tarbox, 2017). Esse profissional é responsável pela implementação de serviços analítico-comportamentais definidos por seu supervisor. (Behavior Analyst Certification Board, 2013). Conforme Kanchwala, 2015, ABA não pode ser confundida com: terapia de aconselhamento; intervenções com finalidade de mudar os pensamentos de um indivíduo ou de controlar o mundo; suborno; programas exclusivos para treinamento de animais ou intervenções aplicadas unicamente a indivíduos no Espectro do Autismo.
 
Baer, Wolf e Risley propuseram em seu artigo “Algumas dimensões atuais da Análise Aplicada do Comportamento”, publicado na edição inaugural do Journal of Applied Behavior Analysis (Spring, 1968) sete dimensões que esclarecem características fundamentais de uma intervenção em Análise Aplicada do Comportamento, diferenciando-a do viés experimental ou conceitual. De acordo com esses autores, as intervenções que não apresentam todas as dimensões estão falhas e potencialmente comprometidas no que diz respeito à eficácia. São elas: Aplicada, Comportamental, Analítica, Tecnológica, Efetiva, Conceitualmente Sistemática e Generalizável.

ABA tem por principal característica ser aplicada, uma vez que comportamentos e estímulos são escolhidos como alvo da intervenção devido a relevância para a sociedade. (Barkley, Wolf e Riskley, 1968) O objeto de estudo dentro dessa ciência é o comportamento, ou seja, tudo que é realizado ou dito por alguém. O alvo da intervenção é o comportamento pelo fato de ser observável e mensurável, de forma que, com esses dados, consegue-se fazer a diferença. (Tarbox & Tarbox, 2017)

Na dimensão analítica, o foco é perceber as variáveis que alteram o comportamento do sujeito em cada ambiente. Com base nessas informações, são realizadas manipulações sistemáticas no ambiente a fim de observar as alterações no comportamento do avaliado. Em ABA, são mensurados comportamentos antes e depois da intervenção, (Tarbox & Tarbox, 2017) pois o indivíduo é comparado consigo próprio para verificar-se quais os avanços que alcançou e o que ainda precisa ser trabalhado. A análise de um comportamento requer informações fidedignas sobre eventos que podem ser responsáveis pela ocorrência ou não de um comportamento. Um profissional que trabalha com intervenções analítico-comportamentais deve, obrigatoriamente, coletar dados a respeito da resposta emitida pelo cliente, cuja informação deve ser descrita de tal forma que qualquer pessoa treinada consiga compreender. Essa atitude refere-se à dimensão tecnológica (Baer, Wolf, Riskley, 1968)
Produzir mudanças substanciais nos comportamentos significantes para a vida do sujeito é o objetivo primordial da

ABA, portanto, é o critério essencial que se utiliza, definindo a ciência como efetiva. (Baer, Wolf, Riskley, 1968) Levar esses comportamentos para a esfera da generalização significa que o indivíduo terá a capacidade de replicá-los nos mais diversos ambientes comuns à sua rotina. Profissionais que trabalham com Análise Aplicada do Comportamento esforçam-se para compreender os efeitos de intervenções que realizam dentro dessa ciência, buscando embasamento na literatura e essa característica torna a ABA conceitualmente sistemática. (Tarbox & Tarbox, 2017)
          
Então, por que ABA é eficaz para intervenções de pessoas com autismo?
O Transtorno do Espectro Autista exige um diagnóstico preciso, visto que é caracterizado por uma série de disfluências em áreas como atividades de vida diária, interação social, habilidades acadêmicas, comunicação funcional, entre outras. Todas essas características podem ser mensuradas, pois os sintomas de autismo são comportamentais. Visto que o objeto de estudo da ABA é o comportamento, ou seja, ações que podem ser observáveis e mensuráveis, a intervenção dentro dessa ciência torna-se efetiva para uma “extensão socialmente aceitável e significativa” no tratamento do TEA. Visto que ABA tem foco em generalizar comportamentos aprendidos para ambientes frequentados diariamente pelo indivíduo, treinamentos são implementados para ensinar habilidades sociais significativas e reduzir probabilidades de que comportamentos-problema ocorram (como acessos de raiva, agressão em relação a si e aos outros, etc).

Segundo Lear, 2004, existe uma série de estudos publicados que validam a eficácia da abordagem ABA:
• O primeiro estudo9 foi publicado por Ivar Lovaas, psicólogo norueguês e pioneiro na aplicação de princípios de ABA no ensino de crianças com autismo. No ano de 1987, Lovaas publicou resultados de uma pesquisa de longo prazo a respeito de intervenção para modificação de comportamentos em crianças pequenas e portadoras de autismo. Os dados revelam que, em um grupo de 19 crianças, 47% dos que receberam intervenção alcançaram níveis adequados de funcionamentos intelectual e educacional, com QIs na faixa do esperado e uma interação bem-sucedida na 1ª série de escolas públicas.
 • Age at intervention and treatment outcome for autistic children in a comprehensive intervention program.5 Este estudo foi realizado no Princeton Child Development Institute e comparou resultados do tratamento em crianças inseridas em um programa amplo de intervenção antes e depois dos 5 anos de idade: 6 das 9 crianças que iniciaram com idade inferior a 5 anos tiveram resultados positivos, enquanto 1 entre 9 das crianças participantes com mais de 5 anos atingiu o mesmo resultado.
The Murdoch Early Intervention Program After 2 years.3 Este estudo foi planejado para replicar o programa de Lovaas e concluiu que 4 de 9 crianças (44%) com autismo submetidas ao programa de Lovaas estavam se aproximando dos níveis normais de funcionamento, enquanto 1 de 5 crianças (20%) de um grupo controle (que não recebeu a mesma intervenção) apresentou os mesmos resultados.
Preschool education programs for children with autism.6 Este livro elencou 10 diferentes métodos de educação pré-escolar e revelou que mais de 50% das crianças com autismo inseridas em um programa pré-escolar de ABA foram integradas com êxito em turmas regulares.
 • Intensive Home-Based Early Intervention with Autistic Children.1 Este estudo postula a eficácia de um modelo de intervenção na casa de crianças com autismo. Grande parte do grupo tratado (14 crianças com idade de 18 a 64 meses) demonstrou ganhos significativos nas áreas de linguagem, cuidados pessoais, sociais e acadêmicos.
Pessoas no Espectro do Autismo, por vezes, necessitam de auxílio para comunicar-se, precisando de ferramentas de comunicação alternativas ou aumentativas.  O PECS (Picture Exchange Communication System ou Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) foi desenvolvido no ano de 1985 por Andy Bondy, Ph.D. e Lori Frost, MS, CCL-SLP. Essa ferramenta consiste numa forma alternativa ou aumentativa de comunicação por meio da troca de estímulos visuais por objetos ou atividades de interesse com base na investigação e na prática dos princípios de ABA. A finalidade do PECS é ensinar comunicação funcional a indivíduos com déficit no repertório verbal e/ou vocal, de modo a emitir comportamentos sob controle de estímulos antecedentes verbais ou não verbais e que produzam consequências mediadas por um ouvinte especialmente treinado para responder a estes comportamentos. Assim, esses comportamentos não precisam, necessariamente, ser vocais, desde que sejam selecionados e mantidos por esse tipo particular de consequência, ou seja, mediada.  Para tal habilidade, o treino do PECS é embasado em ABA, já que utiliza princípios básicos desta ciência, tais como: reforço diferencial, modelagem, correção de erro, hierarquia de ajuda, generalização, entre outros. (BONDY et al, 2002)
 
PRINCIPAIS CONCEITOS DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO (Tarbox & Tarbox, 2017)
Comportamento: Tudo que uma pessoa faz ou diz, são ações que podem ser mensuradas.
Estímulo: Quaisquer objetos ou eventos que façam parte ou ocorram no ambiente do indivíduo.
Antecedente: É um estímulo que ocorre no ambiente do indivíduo e imediatamente precede o comportamento. Pode influenciar o comportamento, mas não necessariamente.
Consequência: É um estímulo que ocorre no meio do indivíduo e ocorre imediatamente após o comportamento.  Consequência, para ABA, é o que conseguimos manipular para que ocorra mudança efetiva no comportamento, pois o influencia diretamente. Consequências podem ser:
Reforço Positivo: Quando é adicionado um estímulo reforçador capaz de, no futuro, manter ou aumentar alguma dimensão do comportamento.
Reforço Negativo: Quando é removido um estímulo aversivo, possibilitando, no futuro, o aumento ou a manutenção de alguma dimensão do comportamento.
Punição Positiva: Quando é adicionado um estímulo aversivo capaz de, no futuro, reduzir alguma dimensão do comportamento.
Punição Negativa: Quando é removido um estímulo reforçador, possibilitando, no futuro, a redução de alguma dimensão do comportamento.
Motivação Operacional: É um antecedente que altera o potencial efeito do reforçador. Podem ser estabelecedoras ou abolidoras.
Motivação Operacional Estabelecedora: é aquela que aumenta o potencial do reforçador e evoca a resposta. Exemplo: a criança não come chocolate há uma semana. Considerando que esse alimento seja um forte reforçador, há grande probabilidade que ela peça chocolate.
Motivação Operacional Abolidora: é aquela que reduz o potencial do reforçador e diminui a probabilidade de a resposta ocorrer. Exemplo: a criança comeu uma barra de chocolate há 5 minutos, portanto, há baixa probabilidade que ela peça para ingeri-lo, pois já está saciada.
Extinção: refere- se a não prover reforço para um comportamento que, no passado, foi reforçado, resultando na redução desse comportamento no futuro.
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON, S.R.; AVERY, D.L., DIPIETRO, E.K.; EDWARDS, G.L. Intensive Home-Based Early Intervention with Autistic Children. Education and Treatment of Children, 1987, vol. 10(4), páginas 352-366.
BAER, D.M., WOLF, M.M., & RISLEY, T.R. (1968). Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1, 91-97.  Disponível em ,https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1310980/pdf/jaba00083-0089.pdf     Acesso em 13.jun.2018 às 10:47
BIRNBRAUER, J.S.; LEACH, D.J. The Murdoch Early Intervention Program After 2 years. Behavior Change, 1993, vol. 10 (2) páginas 63-74.
BONDY, A. S.; FROST, L. A. The picture exchange communication system training manual. Cherry Hill: Pyramid Educational Consultants, 2002, 2a edição.
FENSKE, E.; ZALENSKI, S.; KRANTZ, P., MCCLANNAHAN,L.Age at intervention and treatment outcome for autistic children in a comprehensive intervention program. Analysis and Intervention in Developmental Disabilities, 1985, vol. 5 (1-2), páginas 49-58.
HARRIS, S.L.; HANDLEMAN, J.S. Preschool education programs for children with autism. Pro Ed. 1994.
KANCHWALA, A. What is ABA. The Autism Helper. 2015. Disponível em http://theautismhelper.com/aba-101-what-is-aba/ Acesso em 19.jun.2018 às 15:30
LEAR, K. Help us learn, Ajude-nos a aprender. Um Programa de Treinamento em ABA (Análise Aplicada do Comportamento) em ritmo autoestabelecido. Toronto, Ontario – Canada, 2a edição, 20042004.
LOVAAS, I.O. Behavioral treatment and normal and intellectual functioning in young autistic children. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 1987, v. 55, n.1, p. 3-9.

10.TARBOX, J., TARBOX, C.  Training Manual for Behavior Technicians Working with Individuals with Autism. 1st Edition. Academic Press. 2016.

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